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Archive for agosto \09\UTC 2007

Mutarelli em Santos

Lourenço Mutarelli é daqueles caras de quem você pode esperar tudo num bate-papo, menos que fale sério. O ex-quadrinista e agora “galã de cinema” esteve no dia 17 de julho no Sesc de Santos, dentro do Projeto Terceiras Terças, da Livraria Realejo.

Brincalhão, bem-humorado, logo abriu para as perguntas. “Só tenho assunto para cinco minutos, então, por favor, perguntem”. É difícil acreditar que tenha passado por tantos problemas, desde a infância. Lembra das palavras da própria mãe: “Meu filho é retardado”.

Na juventude, passou por uma experiência que foi crucial para o resto de sua vida. Saía com uma amiga quando foi abordado na rua por um grupo que colocou os dois, vendados, dentro de um carro. Enquanto faziam roleta-russa e discutiam quem seria estrupado primeiro, Lourenço se lembrou da técnica de suicídio psíquico, que aprendera com um amigo. Só que aquilo não era um seqüestro, era uma brincadeira de amigos para levá-lo a uma festa surpresa. Era seu aniversário. Não era o presente que esperava.

Lourenço não achou graça. Não achou nada, continuava sem entender o que tinha acontecido. Tinha início uma profunda crise psicológica. Ele não sentia vontade de fazer nada, não saía à rua, não falava com ninguém, não comia -chegou a pesar 44 quilos. Diz que só começou a sair dessa quando viu na tevê um desses documentários do Jacques Cousteau de exploração no fundo do mar, em que o pesquisador entrava numa caverna submarina profunda, onde antes nenhum homem tinha entrado. “É isso que eu tenho que fazer comigo mesmo, entrar nas profundezas do meu eu”, pensou.

Ajudado pela terapia e por remédios, começou a se reabilitar. E partiu para o desenho em quadrinhos. Foram onze álbuns, uma obra bastante premiada, o que lhe deu o inegável status de melhor quadrinista do cenário underground brasileiro. Foi em um encontro de quadrinhos que conheceu a mulher, que era sua fã. A convivência com ela o transformou numa pessoa mais sociável: “Comecei até a conversar”.

O desenho foi o que lhe deu algum dinheiro, tirou-o da crise profunda em que tinha entrado, o fez conhecer a mulher, ou seja, tornou-se a razão de viver de Lourenço, certo? Errado. Ele não desenha mais. Nem consegue mais pegar num gibi. Partiu para a literatura.

A decisão de parar de desenhar deu-se em razão da falta de prazer que Mutarelli sentia ao fazer os álbuns. Cada um deles era muito cansativo, levava em média um ano para ser produzido. Além disso, ele diz que tinha dominado completamente a técnica, e não conseguia mais se surpreender com o resultado final.

Mas o principal fator que o fez abandonar o nanquim foi a falta de reconhecimento entre os colegas das hqs. Apesar de ser o maior vencedor do HQ Mix (treze!), ter muitos fãs, ele sentia-se um peixe fora d’água entre os outros desenhistas.

Diferente foi a recepção dos escritores. Com o primeiro livro, O Cheiro do Ralo, começou a participar de reuniões, encontros, e percebeu que era mais bem aceito naquele meio. O livro, escrito durante duas semanas de 2001, foi descoberto pelo diretor Heitor Dhalia, mostrado a Selton Melo, e transformado em longa-metragem.

Mas Lourenço, o filme foi bem adaptado? Ele diz que o longa é até melhor que o livro. Explica-se melhor: “Eu só li o livro uma vez, o filme eu continuo assistindo até hoje”. Claro que tem um pouco de orgulho nisso, já que, além de ter inspirado o filme, Mutarelli interpreta o segurança da loja de quinquilharias do protagonista.

Sobre o cuidado que houve em ser fiel ao livro, ele afirma que não se preocupou com isso. Até porque não precisava. Selton Melo andava pelo estúdio com O Cheiro do Ralo nas mãos. Qualquer detalhe da obra era “supervisionado” pelo ator, que apontava minúcias que nem Mutarelli recordava mais.

Lourenço não deixa de mostrar suas opiniões sobre a existência humana. Numa de suas divagações, falou sobre as nossas vaidades. “A gente vai, se olha no espelho, levanta a cabeça para desfarçar a careca, prende a respiração para diminuir a barriga, mas chega lá fora, a gente não consegue prestar atenção nisso, e fica ridículo. Só que tudo bem, porque todo mundo está ridículo. O ser humano é muito estúpido”, filosofa.

Hoje Mutarelli só trabalha com texto. Desenho nunca mais. Até tem procurado se controlar, escrevendo “uma página por semana”, porque todos os seus três livros até aqui foram escritos na base dos quinze, trinta dias. Não gosta de rótulos (em fichas de inscrição, preenche “manicure”), mas pode ser chamado de escritor. Escritor e ator: além da ponta no filme, fez também participação em curta-metragem, peça de teatro, tudo por brincadeira.

Com toda essa habilidade em escrever e atuar, teria interesse também em ser diretor? “Não, todo mundo tem o maior trabalho para no final o diretor levar os créditos. Direção é coisa pra filho de banqueiro.”

Ninguém o aplaudiu no final. Pedidos dele mesmo. Sae como é, fica sem jeito. Ridículo. Esse é Mutarelli.

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