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Archive for julho \16\UTC 2007

Mais que apenas um Zé

Márcio Ribeiro Garoni – desenterrando um blogue

Começar um texto sobre algo que gostamos sem cair no trivial é difícil. O texto do Edu foi genial, mas eu, que sou humano, acho mais complicado. José Hamilton Ribeiro esteve no dia 17 de abril no Sesc-Santos, no Projeto Terceiras Terças, que todo mês traz algum escritor para falar sobre sua obra. Eu estive lá, e após muita luta consigo agora terminar o texto.

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Poucos repórteres conseguem reunir tanta gente no lançamento de seus livros. Poucos repórteres se dispõem a conceder entrevistas por um dia inteiro e ainda dar autógrafos a futuros colegas e/ou fãs. Também são raros os que têm a coragem de cobrir uma guerra como a do Vietnã, o azar de pisar em uma mina e perder uma perna, a sorte de sobreviver, a competência de relatar essa experiência, e voltar àquele lugar trinta anos depois. Um só repórter consegue ser tudo isso junto e, na casa dos setenta, ainda ter o espírito de um foca em busca da maior reportagem de sua vida: José Hamilton Ribeiro.

Cheguei ao Sesc em cima da hora, oito da noite. Na entrada para o teatro, onde seria o encontro, lá estava o homem, dando entrevista para a tevê. Quem gostaria de estar aqui seriam meus pais, mas não rolou. Azar o deles.

Falou dos três livros que estava lançando: Os Tropeiros: diário da marcha, O Livro das Grandes Reportagens Música Caipira – As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos. Também dois outros, lançados há alguns anos: O Gosto da Guerra e Repórter do Século.

Zé Hamilton enfatizou a importância do livro. Postura coerente para quem lançou cinco nos últimos anos. Falou em especial do livro Os Tropeiros. Mesmo com oito horas de vídeo editado, ainda havia muito a ser contado, e nada melhor que o livro. Citou Gabriel García Márquez, ao afirmar que a reportagem também é um estilo literário, podendo muito bem se equiparar ao romance.

Dono de um texto claro e elegante, Zé Hamilton não esquece as origens. Criado na roça, escolheu Zé Biriba para a matéria d’O Livro das Grandes Reportagens. Enquanto todos os outros repórteres pegaram personagens e fatos históricos, o jornalista de Santa Rosa do Viterbo, serendipitoso por natureza, encontrou num sítio em Minas Gerais a figura. No final dessa reportagem, vendo a foto de um garoto de oito anos, perguntou a Zé Biriba, de mais de oitenta, se era seu filho. Ele confirmou, dizendo que lá eles só capavam o galo.

Perguntado sobre cobertura de guerra, ele comparou a do Vietnã, na década de 60, à do Iraque, atualmente. Disse que naquela houve total liberdade de cobertura jornalística, enquanto nesta o repórter tem pouco acesso aos locais mais importantes do front. Teria o desejo de voltar a cobrir guerra? Até gostaria, mas agilidade não é a característica que um setentão com perna mecânica pode se gabar de ter.

Outra observação curiosa que José Hamilton fez foi em relação ao aumento da presença feminina em sua profissão. No Globo Rural, são maioria. Na Globo News, idem, e ocupando os cargos mais altos. A explicação dada por ele -que não agradou muito a elas- é que há três atividades que dependem da curiosidade: o sacerdócio, a medicina e o jornalismo. E é aí que as mulheres se sobressaem, pois têm aquele “bichinho da fofoca”. E profetizou que, em trinta anos, só haverá mulheres nas redações. Os homens que se cuidem. Palavras dele.

Lembrando os dias internado após a amputação da perna, diz que ficou com três medos: num primeiro momento, óbvio, o medo de morrer; depois, o de ficar inutilizado pela profissão; por último, o de ser lembrado somente como o repórter que perdeu uma perna no Vietnã. Bem, sete prêmios Esso de Jornalismo provam que não há muito o que temer.

Mesmo tendo um cansativo dia de entrevistas, andanças, autógrafos e fotos, José Hamilton Ribeiro não perde o bom humor. Contou que nos dias que sucederam a amputação da perna, de cama, percebeu que ficava, digamos, ereto, involuntariamente. Constrangido naquela situação -só tinha a proteção de um jaleco, e vai que a enfermeira esbarrasse ali!-, perguntou ao doutor por que acontecia aquilo. Como o corpo ainda não havia se acostumado à perda da perna, continuava mandando sangue à toda para aquela região. quando o sangue via a “rua sem saída”, adivinha para que lado seguia? Para aquele lugar mesmo. O repórter podia ter perdido a perna, mas não poderia perder a piada: “Daqui a cinqüenta anos, quando as coisas tiveram meio devagar, eu posso vir e cortar a outra perna?”. Um contador de histórias.

No final, após ser bastante aplaudido, fotos e autógrafos. Vê-se que o negócio é rentável: editora e livrarias ganham com a venda dos livros; o escritor, além da grana dos livros, ganha carinho e reconhecimento do público; o público ganha a oportunidade de ler a obra, pegar um autógrafo, bater umas fotos e trocar rápidas palavras com o ídolo.

Eu também não sou bobo (apesar de opiniões contrárias). Com O Gosto da Guerra na mão, recém-comprado, nem lido, lá vou eu pegar a fila do autógrafo. Fila que demora, todos alugando o repórter. Para que tanta foto, meu Deus? Parem de fazer o homem levantar! Celulares e câmeras flecham na direção de Zé Hamilton. E a fila engatinha.

Mas chegou o meu momento. Eu e o homem: Como é seu nome, Márcio, com acento, por favor, Você é estudante de jornalismo, Isso. Trocamos mais alguns sons, ele autografou e me apertou a mão. Não quis abusar e nem pedi uma foto. Até porque não tinha câmera.

Aqueles traços de tinta azul, para mim, valem mais que qualquer byte ou pixel de uma câmera. “Ao Márcio, futuro colega. J. Hamilton”. Tá, eu sei, ele diz isso para ‘todas’, mas tem incentivo maior que esse?

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