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Archive for fevereiro \24\UTC 2007

Márcio – lembram daquela festa que começou no dia 31 de dezembro? Pois é. Terminou. Acabou o Carnaval. Feliz Ano Novo! Agora não tem desculpa.

(Tenho procrastinado o texto sobre o filme “Farto de Solidão”. Tava enorme mesmo, reduzi o máximo que pude. Agora que já faz mais de um mês, publicá-lo-ei. Ex Eis:)

19 DE JANEIRO DE 2007

A noite de 19 de janeiro foi inesquecível para todos aqueles senhores e senhoras no Teatro Municipal de Santos. Noite para lembrar uma época de alegrias e dramas. Noite para reencontrar amigos de 30,40 anos atrás, camaradas que tiveram suas histórias atravessadas pela História, nos anos que se seguiram ao Golpe Militar de 1964.

O homenageado da noite era Luiz Rodrigues Corvo, retratado no documentário Farto de Solidão, que narra sua trajetória política como vereador de Santos, abreviada pela revolução que se revelaria ditadura. Mas já conto como foi o filme.

ANTES DO FILME

Meu celular marcava 20h15 quando subia os degraus da entrada do Teatro Municipal (mostrar as horas é a principal função do meu despert celular). A entrada para o filme seria aberta em quinze minutos. Em volta, observava, predominavam os mais velhos, com seus sessenta, setenta e poucos anos nas costas curvadas. Parou na minha frente um senhor, perguntando se era um filme que iria passar ali. Confirmei, falei que era sobre um vereador que fora cassado na ditadura. Nessa ele perguntou: “E ele está vivo?” Disse que não sabia, ao mesmo tempo em que pensava: Deve ter morrido.

Todos começamos a entrar, alertados pelas monitoras que os lugares do centro para trás eram melhores para assistir ao filme. Sentei ao centro, na primeira fila depois do corredor, para poder esticar as pernas. Casualmente, um homem sentou-se ao meu lado. Alto, sobrancelhas espessas, cabelos grisalhos, falou:

– Engraçado, veio pouca gente, pensei que teria mais.

– É verdade – concordei.

– Você é quem? – perguntou como se eu fosse famoso, não um reles blogueiro.

– Márcio – o que eu podia responder, “marciogaroni.wordpress.com“?

– Ah, você não é parente de ninguém aqui?

– Não, fiquei sabendo do documentário e me interessei.

Ele se surpreendeu por causa disso, ainda mais pela minha idade. Chegava mais gente, inclusive amigos do homem ao meu lado, que me apresentou a eles, etecétaras e tals. Também perto de onde eu me sentava chegou a irmã de Luiz Corvo, Dilma Corvo, a “estrela do filme”, como bem disse uma das senhoras em volta.

– Você conhece essa história? – perguntei ao homem.

– Pô, eu vivi essa história – riu, satisfeito.

As luzes se apagaram, o local bem mais cheio do que vinte minutos antes. Apresentava-se no palco Roberta Corvo, filha de Luiz Rodrigues, a principal responsável pela realização do documentário, que contou como surgiu a idéia do filme. Chamou para o microfone Mariana Reade, que dirigiu o filme junto com Luiz Carlos Prestes Filho. Reade agradeceu aos colaboradores que prestaram depoimento no documentário – muitos deles presentes – e finalizou o doscurso assim: “Agora, ninguém melhor para contar essa história do que o próprio Luiz Rodrigues Corvo.

Me surpreendi. Luiz Corvo saía de trás das cortinas que guardavam o telão. Palmas. Corvo falou da surpresa preparada pela filha: ele pensava que estava gravando um documentário sobre o período; não imaginava que era ele o personagem principal. Só foi descobrir quando recebeu o filme pronto, ano passado, no aniversário de 65 anos.

COM VOCÊS, FARTO DE SOLIDÃO

O documentário é filmado todo em Santos, exceto no início, gravado em São Paulo, no Palácio Positivista do Brasil. Ali se exalta o ideal positivista no Brasil, que originou nossa independência sem armas, personificada em José Bonifácio. Esses ideais do francês Augusto Comte inspiraram o Hino Nacional e a frase de nossa bandeira. A analogia criada pela dupla de diretores é perfeita, pois a “ordem” e o “progresso” foi o que menos se viu nos anos da ditadura no país, onde muitos tiveram que lutar contra um inimigo interno – o próprio governo.

Na década de 60, Santos era a Moscou Brasileira. Assim como no início do século XX o anarquismo tornou a cidade a Barcelona Brasileira, nos anos 60 o comunismo tinha em Santos seu coração vermelho. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), muito forte aqui, era clandestino antes mesmo do golpe.

Em 1963, eleito vereador aos 22 anos pelo Partido Republicano, Luiz Corvo era o segundo mais votado do pleito. Em 1° de janeiro do ano seguinte tomou posse e em  27 de março iniciou o exercício parlamentar. Porém, a “revolução” de 1964 esgotou as esperanças de legitimação do PCB, partido ao qual Corvo realmente pertencia. Ele precisaria fugir. Só neste momento a família ficou sabendo que Corvo era membro do Partidão. A irmã, Dilma, não entendia a filiação de Luiz ao PCB: “Ele não tinha necessidade de ser comunista”.

Fugiu para São Paulo. O coronel Erasmo Dias foi à casa da mãe de Corvo e disse que tinha ordens para matá-lo. O vereador, ligava diariamente para casa para dizer que estava bem, pois volta e meia noticiava-se sua morte. No dia 6 de abril, seu mandato foi cassado, sob alegação de “medida de salvação nacional pela sua integração nas forças que ameaçaram a segurança e a soberania nacional”.

Erasmo Dias, comandante da Fortaleza de Itaipu, onde Corvo ficou preso por 4 meses em 1965, também depõe no filme. Os velhinhos da platéia esqueceram os próprios cabelos brancos e xingaram a imagem projetada na tela. A mãe de Erasmo Dias foi lembrada várias vezes.

Luiz Rodrigues Corvo nunca mais voltaria à carreira política. Promessa que precisou fazer à mãe, angustiada com o risco que o filho correu naquele período. Dedicou-se à advocacia e, principalmente, à família. A mãe está viva até hoje.

O início do filme exibe um vídeo de Luiz Corvo na praia da Santos, com a mulher e os filhos. Já é a Santos do final dos anos 70, um pouco mais calma com o abrandamento do regime. O documentário termina com as mesmas imagens do ex-vereador com a família na areia. Talvez sua vida seja como o mar à beira da praia. Cheia de altos e baixos, a maré sobe um pouco, logo retorna para trás. Fica na areia a marca da água.

CUMPRIMENTOS, DESPEDIDAS

Terminado o filme, mais palmas, todos de pé, e formou-se uma pequena multidão ao redor do homenageado. Ia me despedir do homem que se sentara ao meu lado, mas este já conversava com Corvo. Fui abraçar a irmã, Dilma Corvo, e dei parabéns a ela. “Todos precisam conhecer essa história”, disse, percebendo minha idade.

Desci pela escadaria à esquerda, cruzei o concreto da entrada do teatro e desci o lance de escadas da saída. A noite daquela sexta-feira foi inesquecível. Principalmente para um jovem de 18 anos que por duas horas viveu intensamente outra época.

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SAITES DE APOIO:

http://www.camarasantos.sp.gov.br/noticia.asp?codigo=1163&COD_MENU=102 – história de Luiz Corvo;

http://blog.comunidades.net/adelto/index.php?op=arquivo&pagina=12&mmes=01&anon=2006 – história dos apelidos de Santos, como Cidade Vermelha, Barcelona Brasileira, relação com a literatura;

http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0285z3.htm – homenagen da Câmara a Corvo em 2004.

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OUTRA COISA

Quem tiver um tempinho de sobra e gosta de um bom jornalismo, leia este texto, de uma estudante de jornalismo da Bahia. Isso que é reportagem. Leia o texto intitulado As faces da loucura, o segundo da página. Lízia Sena o nome dela.

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Tarcisio Oliveira

Eu estava lendo Sanduíches de Realidade (Arnaldo Jabor), quando deparei-me com este texto, lembrei que no ano passado a Professora Edna Alessio pediu para que fizéssemos um texto comparando São Paulo e Rio de Janeiro, acho que ela vai gostar desse.

 

Vários chatos na ponte aérea já me disseram: “Por que você não escreve sobre Rio e São Paulo?” Nunca escrevi, porque este tema é a pior forma de fim de noite, quando todas as piadas já acabaram. Pior que “homem e mulher”, pior que “Picasso ou Bracque”, pior que “Beatles ou Rolling Stones”. Mas, atendendo a pedidos (já que é fim de ano), resolvi aceitar o tema. Vamos a isto.

 

            “ A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.” (Nélson Rodrigues)

            “A pior forma de ilusão é a simpatia de um carioca.” (eu)

           
Em São Paulo, se você bobear, vira escravo. No Rio, se bobear, vira vagabundo.

            O carioca está deprimido e não sabe. O paulistano e maníaco e não sabe.

           
Em São Paulo, os milionários trabalham. No Rio, moram em Paris.

           
Em São Paulo, o contrário do burguês é o proletário. No Rio, o contrário do burguês é o boêmio.

            Carioca acredita no espírito carioca. Paulista acredita na matéria.

            São Paulo é Carandiru. Rio é Vigário Geral.

            No Rio, só os criminosos são práticos e organizados, como os paulistas.

           
Em São Paulo, o crime ainda esta fora do processo produtivo.

           
Em São Paulo, o crime é free lance. No Rio, o crime é empresa. Ou seja, no Rio, o crime é paulista.
Em São Paulo, o crime é carioca.

            São Paulo é um filme americano. O Rio é um filme brasileiro.

            O Rio é ficção. São Paulo é documentário.

            A miséria no Rio é dentro.
Em São Paulo, é fora.

            No Rio, a miséria e no alto.
Em São Paulo, é embaixo.

           
Em São Paulo, há menos miséria; mas a miséria é mais miserável. No Rio, a miséria já deu samba.
Em São Paulo, a miséria não dança.

            O “cash flow” dos mendigos é melhorem São Paulo. Mas no rio ele se sente em casa.

            Se eu fosse miserável, preferiria morar no Rio.

            O Rio é matisse e Munch (no mesmo quadro). São Paulo é Marcel Duchamp.

            No Rio, os motéis estão por toda a parte.
Em São Paulo, os motéis são na Via Dutra.

            No Rio, sexo é prazer.
Em São Paulo, é pecado.

            Todo paulista tem amante. Todo carioca come alguém.

            No Rio, as putinhas têm prazer.
Em São Paulo, são frias.

            No Rio, há café society.
Em São Paulo, Café Photo.

            Na Ipiranga com a São João, São Paulo foi redescoberta por um baiano.

            Antes de Caetano, São Paulo não sabia que existia. São Paulo tinha complexo. Agora, o rio tem inveja.

            No Rio, as mulheres são mais sensuais.
Em São Paulo, são mais sacanas.

            No Rio, há nudez, com menos desejo.
Em São Paulo, muita roupa, com mais tesão.

            No Rio, as mulheres são cínicas.
Em São Paulo, são românticas.

            O Rio é histérico. São Paulo é obsessiva.

            Paulista é mais serio que carioca. Por isso, pode até acabar com você.

           
Em São Paulo, filho da puta é filho da puta. No Rio, como saber?

            Paulista odeia críticas. Carioca odeia auto críticas.

            O Rio é a “dialética da malandragem”. São Paulo é Antonio Candido.

            O Rio é vagabundo, São Paulo é lúmpen.

            O Rio é Oswald de Andrade. São Paulo é Mario de Andrade.

            São Paulo é PT. O Rio é PMDB. Mas o Rio é socialista. São Paulo neoliberal.

            O Rio é associativo. São Paulo, seqüencial.

            O Rio é eu. São Paulo, “os outros”.

            O Rio é católico, São Paulo, protestante.

            O Rio é esquizofrênico. São Paulo, paranóico.

            O Rio se acha superior ao resto do Brasil. São Paulo é superior.

            No Rio, há contos do vigário.
Em São Paulo, bons negócios.

            No Rio, são todos amigos.
Em São Paulo, todos são puxa-sacos.

            O carioca se ilude com a paisagem. Paulista se ilude com a avenida Paulista.

            Paulista gosta de carioca. Carioca não gosta de paulista.

            Carioca não te convida para jantar. Paulista convida, para te jantar.

            Carioca pensa que ainda é criativo, mas está apenas mal-informado.

            Todo o poder estáem São Paulo. No Rio, todo o poder está na Globo.

            No Rio, estamos diante de uma saudade.
Em São Paulo, tudo é fato consumado.

            Carioca pensa que sabe gozar a vida. Paulista aumenta a produtividade.

            O Rio é um feriado, São Paulo é uma segunda-feira.

            No Rio, todos são funcionários públicos, aposentados ou psicólogos.
Em São Paulo, todos são publicitários, gerentes de marketing ou psiquiatras.

            O Rio é insolúvel.
Em São Paulo, o insolúvel é mais organizado.

            SP é prozac. Rio é maconha.

            O Rio é viado. São Paulo drag queen.

            No Rio, só tem otário.
Em São Paulo, só tem malandro.

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Márcio – com um trabalhão pra semana que vem

Desde o dia 20 de janeiro, eu venho escrevendo uma matéria pra pôr aqui. Nada factual, nada chato (eu espero), mas o problema é que o primeiro texto, à mão, tem 9 PÁGINAS!, sem brincadeira. Tô dando uma secada e o texto tá em 4 páginas, o que já é um avanço. Vou dar mais uma resumida e acho que semana que vem fica em trinta, quarenta linhas. É sobre um documentário que eu vi nessas férias, dirigido pela Mariana Reade e Pelo Luiz Carlos Prestes Filho. (Semana que vem, sem falta, Reade!) Hoje vocês ficam com o Ricardo Kotscho, um dos melhores repórteres do Brasil. Texto tirado do nomínimo 

 

A São Paulo, com carinho

Quanto mais viajo, e no ano passado dei várias voltas pelo Brasil, maior é a sensação de felicidade ao retornar para minha cidade. Por isso, fico triste quando as pessoas falam mal dela.Pode parecer esquisito fazer esta declaração de amor exatamente no momento em que São Paulo ainda está consternada com o desabamento e as mortes nas obras do metrô em Pinheiros, bairro onde morei boa parte da minha vida.Vai ver que é por isso mesmo. É nessas horas difíceis, como se fosse uma pessoa querida, com tantos dramas e transtornos causados pela tragédia, que São Paulo mais precisa do carinho de seus filhos, os que aqui nasceram ou para cá vieram em busca de uma vida melhor.

Blasfemar não resolve, só faz mal para nós mesmos.

Como não acredito que sejamos mais de dez milhões de masoquistas os que neste canto do mundo vivemos, e ninguém é obrigado a ficar, todos ganhariam se dedicassem parte de seu tempo a pensar no que cada um poderia fazer para tornar a convivência por aqui mais agradável e menos insegura em vez de ficar xingando o destino e caçando culpados pela desgraça.

A começar por nós mesmos, repórteres. Só na caudalosa cobertura do pós-tragédia ficaríamos sabendo que:

1) há vários meses moradores de imóveis ao longo de todas as dez estações da Linha Amarela estavam assustados com rachaduras e trincas provocadas pelas obras do metrô;

2) dias antes do desabamento já havia sinais de sérios problemas na estação Pinheiros e ninguém da vizinhança nem do governo foi alertado para o perigo pelas empreiteiras responsáveis.

Assim como o PCC já existia há muito tempo, mas só ganhou as manchetes quando a bandidagem botou fogo na cidade no ano passado, os problemas com a obra da Linha Amarela do Metrô apenas despertaram a atenção da imprensa quando a estação Pinheiros implodiu na última sexta-feira tragando sete vítimas.

Se andasse mais pelas ruas e pelos becos e ouvisse mais gente fora dos gabinetes, lá onde moram seus leitores, certamente algum repórter poderia ter descoberto antes o que estava acontecendo nas obras do metrô ou nos presídios paulistas.

Quantas outras armadilhas estarão espalhadas pela cidade nesse momento e nós não estamos sabendo porque a nossa imprensa foi cada vez mais se afastando da realidade do nosso dia a dia?

Como hoje se costuma fazer reportagem sem sair da redação, por telefone ou pela internet, com os jornalistas mais empenhados em cobrir as futricas da eterna disputa político-partidária do que com a vida real, acabamos sendo tão surpreendidos quanto os bombeiros quando soa o alarme.

Depois, não adianta encher os jornais de editoriais e artigos indignados. No tempo devido, caberá à Justiça, consultados os peritos especializados no assunto e as provas técnicas produzidas, denunciar os responsáveis pelo desabamento – não a nós, jornalistas, engenheiros de obras (mal) feitas.

De uns tempos para cá, estamos desenvolvendo esse péssimo hábito de denunciar, julgar e condenar, assumindo ao mesmo tempo o papel de delegados, juízes e promotores, que ninguém nomeou para isso.

Tem dia em que morre mais gente na rotina do nosso trânsito maluco do que foram as vítimas da obra do metrô, e nem por isso a cidade não presta, nem vamos sair pelas ruas tentando fazer justiça com as próprias mãos, caçando os motoristas assassinos que andam à solta por aí.

Poderia eu também estar passando junto à obra quando a cratera se abriu, pois por ali transitava freqüentemente. Por quase trinta anos, morei bem em frente ao local do desabamento, do outro lado do rio Pinheiros, no Butantã.

A barulheira das obras, com explosões freqüentes precedidas do aviso da sirene, começou pouco antes de eu me mudar de lá em 2005, mas não adiantou muito porque uma outra estação do metrô está sendo construída na rua onde moro agora. Parece perseguição, mas nem por isso vou renegar a minha cidade.

Embora não me lembre de alguma vez ter usado o metrô em São Paulo (prefiro andar a pé ou de táxi), trata-se de uma obra importantíssima, vital para a cidade, que já vem com décadas de atraso. Além disso, sempre ouvi falar que o nosso metrô é um dos melhores do mundo, com baixo índice de acidentes.

É muito fácil sair por aí batendo nos nossos governantes passados e presentes, empreiteiras e engenheiros, mas entendo que somos – ou deveríamos ser – todos responsáveis por tudo de bom ou de ruim que acontece nesta cidade, pela nossa ação ou omissão, até porque somos nós que escolhemos os prefeitos e governadores, que por sua vez contratam as empreiteiras encarregadas das obras.

Mas o que se pode esperar de uma população em que a maioria, segundo as pesquisas, nem sabe o nome do prefeito da sua cidade? Está certo que o atual prefeito era apenas o vice do atual governador, mas Gilberto Kassab já está no cargo desde meados do ano passado.

Quem lá vai lembrar do nome do vereador em quem votou nas últimas eleições? Quantos de nós alguma vez participamos de algum movimento em defesa da nossa rua ou do nosso bairro, já nem falo da cidade? Ou já fizemos algum trabalho voluntário, qualquer um, para melhorar a vida dos mais necessitados de ajuda?

No final dos anos 60, na véspera de mais um aniversário de São Paulo, o editor local do “Estadão”, que estava com falta de matérias para fechar as suas muitas páginas no feriado, me encomendou uma crônica sobre a cidade.

“Amo essa cidade com todo ódio”, foi o título que perpetrei, sem perceber que estava apenas repetindo um sentimento até hoje dominante em boa parte de seus moradores. Coisa besta de quem mal tinha completado 20 anos, e ainda achava que jornalista foi feito para chocar a burguesia e arrancar aplausos dos seus colegas.

Nesta semana que antecede a festa de seus 453 anos, São Paulo mereceria não apenas carinho, mas também um pouco mais de respeito de todos nós, tanto por sua belíssima história, que no último século a transformou numa das principais metrópoles do mundo, como também por que é aqui, afinal, de um jeito ou de outro, que continuarão vivendo nossos filhos e netos.

Precisamos acabar com essa paranóia de achar, a cada seis meses, a cada acidente de maiores proporções, enchente ou nova explosão de violência, que o mundo acabou. A vida continua.

Apesar de tudo, parabéns, São Paulo. Tenho muito orgulho de ser o primeiro paulistano de uma família que veio da Europa, ter nascido na Pró-Matre, maternidade próxima à emblemática avenida Paulista e, ainda por cima, ser são-paulino, atualmente morador do Jardim Paulista.

Já fui assaltado e atropelado, já perdi boa parte da minha vida em congestionamentos, já morei na Alemanha, em Curitiba e Brasília, já rodei esses anos todos o Brasil e o mundo, mas meu sonho de uns tempos para cá é ficar por aqui mesmo, de preferência em casa com a família, que não pára de crescer, como a cidade, e agora só tem paulistanos.

Vista da minha janela, a cidade é linda, mesmo em dia de chuva e com helicópteros pairando bem em cima do meu prédio me azucrinando a vida a tarde toda. É a minha cidade.

Só me resta amar São Paulo, sem ódio.

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