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Valsa dos Clowns

Márcio – podia ser outro, acreditem…

Semana passada contei a história do palhaço triste, um conto antigo que tinha lido numa reportagem sobre o fim do circo. Pois bem, essa semana descobri uma música do Chico Buarque que diz tudo sobre esse conto. Chama-se “Valsa dos Clowns”, composta em 1982 com Edu Lobo. Eu não consegui o vídeo nem o áudio (quem achar manda o linque), mas fica aqui a letra:

Em toda canção
O palhaço é um charlatão
Esparrama tanta gargalhada
Da boca para fora
Dizem que seu coração pintado
Toda tarde de domingo chora

Abra o coração
Do palhaço da canção
Eis que salta outro farrapo humano
E morre na coxia
Dentro do seu coração de pano
Um palhaço alegre se anuncia

A nova atração
Tem um jovem coração
Que apertado por estreito laço
Amanhece partido
Dentro dele sai mais um palhaço
Que é um palhaço com um olhar caído

E esse charlatão
Vai cantar sua canção
Que comove toda a arquibancada
Com tanta agonia
Dentro dele um coração folgado
Cantarola uma outra melodia

Em toda canção
O palhaço é um charlatão
E esse charlatão
Vai cantar uma canção

 

O palhaço Pagliacci

Márcio Ribeiro Garoni - trocando de pele tal e qual uma naja no calor do deserto africano – descascando a cara, pra deixar de frescura!

Numa dessas cidadezinhas do interior, havia um homem que sentia um vazio no coração. Decidiu ir ao médico, o único da cidade.

– Doutor, eu estou me sentindo muito mal, não sei o que tenho.

O médico examinou aquele homem de olhar vago, curvado, cuja voz mal saía da boca. Viu seus olhos, sua língua, verificou sua respiração, fez algumas perguntas e finalmente chegou à conclusão:

– O que o senhor tem é uma tristeza bem profunda. Muitos já passaram por isso: é uma desesperança com a vida, uma visão de que não há perspectivas, mas não é difícil de curar.

– E qual é a cura, doutor, eu não agüento mais essa dor!

– Faça o seguinte: amanhã à noite chegará o circo e lá estará o palhaço Pagliacci, o palhaço mais engraçado que eu conheço. Vá ao circo e assista à apresentação desse palhaço. Tenho certeza que no final do espetáculo você se sentirá bem melhor.

Nesse momento, o homem caiu em prantos:

– Doutor, eu que sou o palhaço Pagliacci…

Não é pra rir. Quantos de nós não temos um pouco do homem dessa história, que por trás da pintura do rosto esconde o que ninguém consegue notar?

Notícias & Bobagens

Márcio Ribeiro GaroniO único que não entrou de férias

O BLOGUE ESTÁ CRESCENDO…

Estão começando a aparecer uns comentários de gente que eu nunca vi mais gorda na minha vida. Tão vendo como o nosso blogue cresce? Já são maos de 1500 acessos (de tosse, de riso…). Por dia, 15, 20 em média. O Palavras Limpas tem nosso blogue lincado, é só ver lá no canto esquerdo. E O Manifesto Canhotista é um marco: O Will, que eu nem conheço, lincou esse texto no seu blogue.

POÉTICA

Será lançada a revista literária Poética no próximo dia 19 de janeiro, às 20h, no Centro Comunitário Castelo Branco, na rua Vergueiro Steidel, 213 (atrás do SESC-Santos). A entrada é gratuita e haverá também um sarau poético.

FEBEAPÁ – Século 21

O livro de Sérgio Porto (vulgo Stanislaw Ponte Preta) já tem quase 40 anos, mas as pérolas continuam a todo vapor. Algumas que presenciei, seja ao vivo ou pela tevê:

  • 25 de dezembro de 2006: uma amiga do meu pai, dando os votos de Natal, via Nextel – “Feliz Natal pra todo mundo da sua família, inclusive pra você”. Tá ligando para ele e fala inclusive. Maravilha…
  • Tá na Constituição?: Num telejornal da noite uma senhora, moradora das redondezas do aeroporto, reclamava reclamava dos horários dos vôos de Congonhas: “Os vôos vão até as duas da manhã, voltam às seis. A gente só tem direito a dormir quatro horas por dia. Isso é inconstitucional!”
  • Inglês demais pra você: Ana Maria Braga está apresentando seu Mais Você direto de um cruzeiro nos Estados Unidos. Não bastassem as mancadas em português mesmo (“Animal também é um ser humano”, “M de Amor”, eu vi!), ela deu pra conversar com os tripulantes e comandantes em inglês. Nesta semana, na enfermaria do cruzeiro, Louro José estava enjoado e nossa apresentadora tupiniquim perguntou pro doutor: “Do you have a pill for enjoiyng?” O médico ficou catatônico.

COMENTA, VAI?

Pra vareiar, um soneto

 Márcio Ribeiro GaroniFilho de Ivan, Ivanhoé. (hortifruti.org)

Hoje, além da preguiça, tô numa lanrause e sem dinheiro. Vou ser curto e grosso, vou tentar não machucar. Enjoy. Ou enjoe.

MINHA TURMA DO CANTÃO

Já se foi um ano de jornalismo.

Passaram dois semestres sem igual.

Agora não é nada pessoal,

Pra todo mundo não dizer que eu cismo.

 

No futuro, quem sabe num jornal.

Por enquanto, pagamos nosso dízimo.

Poesia, prosa, ironia, cinismo.

Não mereço mais que um factual?

 

Para isso, um blogue na internete

No final de dois mil e seis, na Facos.

(Quase) sete blogueiros por paixão.

 

Confesse, estamos pintando o sete!

Pra gente parar de coçar os sacos*

Só mesmo lendo a Turma do Cantão.

______________

*me desculpem, meninas!

Márcio Ribeiro Garoni - com mais um texto vergonhosamente entupêndulo!

Nunca pensei que fosse escrever sobre minha condição de canhoto, assim como sobre a situação do canhoto perante a sociedadade e, conseqüentemente, perante o mundo. Mas decidi me engajar, tô revoltado. Como todas as minorias que se tem idéia já se rebelaram e expuseram ao mundo suas dificuldades, eu, que sou canhoto (com muito orgulho, com muito amor), começo aqui o que deve ser a última revolução de uma classe oprimida, convocando desde já os mãosquerda de todo o Brasil. Lá vai, cuidado:

O mundo foi feito para os destros, não há como negar. Neste momento, estou escrevendo este texto a lápis, e como a escrita corre da esquerda para a direita, minha mão passa por cima do texto. Se não borra o folha, borra meus dedos, que sempre ficam manchados; caneta, então… Hoje tem o computadpr, que aparentemente equilibra as coisas, usamos as duas mãos. Mas vai ver onde fica o teclado dos números. Se algum contador desse mundo for canhoto – acho que não existe contador canhoto nesse mundo, no máximo ambidestro – concerteza ele ainda usa a boa e pirata calculadora de mão. Não muda no videogueime: os botões que exigem mais do viciado são os da direita, à mão esquerda cabe tão-somente a função do burocrático “direcional”, quando muito a do pause.

No violão – não que eu tenha tocado -, inverter as cordas. No jantar, trocar de mão com os talheres – eu que sou pouco apatralhado. Na sala de aula, entortar-se na carteira para destro: quando a gente acha carteira para canhoto, se desacostuma e vai pondo o cotovelo direito no encosto que deveria estar lá – mas tá do outro lado; do chão não passa… Acho que só em alguns esportes o canhoto tem vantagem, por estar acostumado a sempre disputar contra destros, ao passo que o destro raramente enfrenta canhotos. O boxe e o tênis de mesa são dois exemplos.

A gente vê claro esse preconceito contra os mãosquerda nos idiomas. No francês, gauche, que significa “torto”, “errado”. No italiano, sinistro, que denota algo sombrio, ruim. No inglês, direito é right, certo?. Em português mesmo é escancarado, “direito” é certo, correto. E a palavra destro, que na nossa língua também quer dizer “habilidoso”, “hábil”. Lindo, não?

Pode apostar, companheiro, se você é destro e tem uma caligrafia sofrível, nasceu canhoto e foi “endireitado”. Conheço um amigo que sofreu na carne isso, literalmente. Eu, quase. E não sucumba às armadilhas das elites mãodireitistas que apelam para ser ambidestro, porque canhoto de verdade é canhoto até sem o braço esquerdo!

Provavelmente até essa parte do texto só chegaram os canhotos. Os destros abandonaram, até porque é uma situação que a eles não diz respeito, a realidade dói. Vocês dois ou três canhotos que resistiram bravamente, agora sabem que por que a esquerda nunca tem vez no Brasil, não é? Por isso que eu digo:

CANHOTOS DE TODO O MUNDO, UNÍVOROS!

(Será que o final eu escrevi direito? Ainda bem que não!)

*****

NOTÍCIAS DE ÚLTIMA HORORA

  • O sr. Ailton Jr., cujo blogue encontra-se no linque à direita, lincou o nosso blogue. Naquela terça-feira, a gente bateu o recorde de 70 VISITAS. Nos dias seguintes o pessoal caiu na real e tudo voltou como era antes;

  • esse texto já tá sendo escrito no ano que vem, 2 de feveriro de 2007, às 13h04, horário de Brasília. Num passe de mágica, está como postado no sábado, adeus ano velho;

  • pôxa, dois textos seguidos e mais nada na semana? O pessoal do blogue debandou…

  • hoje de manhã descobri que tá R$ 2,20 o busão. Municipal. Vou começar a fazer teletransporte;

  • foi executada a execução de Saddam Hussein. Faltam os outros terroristas: bin Laden, Rumsfeld, Bush… Os dois últimos só devem ser julgados pela História.

  • o filme “Turistas” é que passa uma imagem negativa do Rio? E essas fotos não?

A realidade é pior que a ficção…

Sessão “COMENTA, VAI?”

Márcio Ribeiro Garoni 

(confesso, tô escrevendo o nome completo pra procurar no gúgol!)

Santos, sábado, 23 de dezembro de 2006, 17h13, horário de Brasília, escreve-nos ele, Márcio, nosso correspondente na lã-house, enquanto não é atacado pelas ovelhinhas.

 Parece que esse meu texto será o último antes do Natal, porque, sacumé… Desde já desejo bom Natal a todos, e que o Bom Velhinho tenha um saco enorme para cada um de vocês. Bora?

*****

Frase da semana: “Já tô de saco cheio do Natal! Todo ano estamerda!” – São Nicolau, vulgo Papai Noel, usando um termo da Turma do Cantão, que vai ter que trabalhar 24 horas nesse 25 de dezembro.

*****

O Natal não será tão feliz para as 166 famílias desabrigadas por causa do incêndio do dia 19 na Vila Alemoa. Não houve mortes, mas 710 pessoas perderam suas casas e vários pertences. Agora, às 17h37, o site da Prefeitura de Santos está agradecendo as doações e suspendendo-as, pois já são o suficiente para atender aos desabrigados.

*****

Morreu Joseph Barbera, da dupla Hanna-Barbera, criadora de sucessos como Scooby-Doo, Tom e Jerry, Flintstones e Jetsons. William Hanna já havia falecido cinco anos atrás.

*****

Informe publicitário e cretino

Mais um Natal sem dinheiro, sem presente, você não acredita mais no Papai Noel desde aquele dia que ele entrou no banheiro e saiu sem barba branca, de calça dins, camisa regata e boné da Gaviões? Descobriu que o mundo é cheio de injustiças, miséria, fome, violência, que o ser humano não deu certo, que Jesus Cristo não nasceu no 25 de dezembro?

É, a vida é dura, amigo. Faça o seu fígado pagar por tudo isso bebendo o conhaque Jesus Tô Indo. Deguste pelomenos três garrafas, que é pra fazer efeito!

E não esqueça, o conhaque Jesus Tô Indo fica mais melhor com o amendoim Pérola do W.C. Comeu, corre pro abraço!

*****

Dia 19, terça, o poeta Manoel de Barros fez 90 anos. Pra quem não conhece:

Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

*****

Carlos Castelo, Caros Amigos n° 117, dezembro de 2006, p. 11: “A proclamação da República foi em 1889. E a Instauração, quando será?

*****

Nossa dePUTAiada e o seNADA aumentou seus vencimentos em mais ou menos 91%. O Supremo Tribunal Federal, sério quando lhe convém, cancelou o aumento, por ser “inconstitucional”. Cada um quer sua parte do bolo. Não pediram pro Papai Noel? Vai viver com um salário mínimo ou com um Bolsa-Família pra ver o que é bom…

*****

No dia de hoje, em 1988, Van Gogh cortava a orelha. Em homenagem a ele, devemos todos cortar as nossas também. Em 1503, nascia Notradamus. Tô cagandus e andandus.

*****

Por fim, um clipe de Natal dos Garotos Podres. A música Papai Noel Filho da Puta. Cantaram “Velho Batuta” porque tavam na Globo – Aqui não tem essa de censura não – mais ou menos:

 

por Guiherme Júnior 

Olá meus amigos, apesar de sumir por uns dias, estou aqui novamente, ainda que escrevendo por intermédio de uma lan house e no dia errado… Meu computador foi atingido pelo Ebola, ou algum vírus semelhantemente mortal e está grevemente enfermo… Vamos ver se ainda há esperança para o coitado!

Vamos ao texto:

SALÁRIOS MÍNIMO E DOS CONGRESSISTAS: EXEMPLO CLARO DE DESIGUALDADE SOCIAL

 O ”reajuste” dos próprios salarios em 91%, aprovado pelos membros do congresso nacional revoltou a grande parte da população, no mesmo momento em que foi aprovado com muito custo pelos mesmo acima citado um aumento de R$ 30, depois que o Orçamento passou por remanejamentos. Ainda assim, pelo que se percebe o menor valor para os salários dos membros do Congresso não será menor que R$ 16500, com um aumento de R$ 4000 no salário atual dos parlamentares, muito distante do “oferecido” às pessoas que recebem seus salários com base no salário mínimo…

Segundo o DIEESE, o salário mínimo aprovado pelo congresso corresponde à 39,5% do que valia em 1940, quando foi instituído. Em valores atuais, o mínimo deveria ser de R$ 915,13. Porém, o mesmo DIEESE afirma que, para atender às necessidades previstas na lei que o promulga, o mínimo deveria valer R$ 1613,08.

Claro que os senhores parlamentares tem família, precisam manter uma vida digna, mas ganhar 10 vezes mais que o necessário pra manter uma família de quatro pessoas, enquanto a grande maioria das pessoas não chega nem perto de um quarto disso é uma grande discrepância.

O fato é que enquanto apenas mantermos olhares distantes das coisas que acontecem a nossa volta, continuaremos a mercê dos desmandos de pessoas que se consideram poderosas, quando não passam de meros funcionários públicos, eleitos por nós mesmos.

Quem tem que dar um rumo e um sentido às nossas vidas somos nós mesmos, mas sem esquecer que não vivemos isolados no mundo. Nossas conquistas, antes de tudo, têm que ser COLETIVAS!!!

É preciso pensar!!!

E como sempre estou eu, aqui. Parada na frente do micro sem saber o que escrever. Não! Não é por falta de assunto… Tantas coisas acontecem! NaTV, na minha vida, na vida de meus amigos, é Natal, fim de ano, ruas cheias, pessoas consumistas, luzes, Papai Noel, mortes, vidas, férias, sol (muito sol), chegada do verão, chuvas, incêndios, sonhos, medos, amores, viagens, e mais Natal, e mais luzes, e pessoas comprando. Pois é, não é por falta de assunto.

Bom, resolvi. Falarei do Natal.

Ah! O Natal. Tempo feliz, tempo de festa… Mas o que é (verdadeiramente) o Natal?!
Eu, cristã e católica, acredito no nascimento de Jesus Cristo Salvador, nascido no ventre da Virgem Maria pela luz do Espírito Santo. Mas o que o mundo acha?!

Isso me assusta. As pessoas não tem mais o espírito natalino, de nascimento, de união. Só pensam em gastar o 13°. Tudo bem! Eu sei, é merecido. Afinal, trabalhamos o ano inteiro, merecemos gastar com o que quisermos e não só com as contas de todo fim de mês. Mas e o Natal, onde fica?!

Irmandade, fraternidade, solidariedade. Sentimentos presentes no Natal, mas que não são próprios desta data. Devem ser presentes durante todo ano. Natal é um tempo de graças e reflexão. Tempo de reconciliação. Sim! Por que não? Tempo de perdão.

Sabe a história que nossos pais nos contaram quando crianças: “se não for bonzinho, Papai Noel não vai trazer presente”. A reflexão começa por ai. O que fomos no ano que passou?! Bons, maus, felizes, rancorosos? Foi um ano de bons ou maus frutos? Será que merecemos o presente: a paz no coração! A paz de quem tem a consciência tranquila e uma no cheio de graça. Ou ainda, a paz do dever cumprido e lições aprendidas.
Enfim, que seja um Natal de paz, de luz (não, não são pisca-piscas!). Luz para seguir caminhos certos, ou saber voltar de caminhos errados. Que seja um Natal de amor.

Que Deus abençoe a todos deste Cantão.
E que nasça Jesus, verdadeiramente, no coração de cada um.

Feliz Natal!

Márcio Ribeiro Garoni – como prometido, alguma coisa parecida com jornalismo 

 

Morreu de infarto Augusto Pinochet, no Hospital Militar de Santiago do Chile. O ex-ditador chileno, que tinha 91 anos, faleceu no último domingo, 10 de dezembro, e estava internado desde o dia três, em razão de um ataque cardíaco.

Pinochet foi presidente do Chile de 1973 a 1990. Tomou posse por meio de um golpe de Estado, que culminou com a morte do presidente em exercício Salvador Allende. O período foi caracterizado pelo crescimento de economia chilena e por uma grande repressão, com três mil mortos. Em 1988, um plebiscito restabelecia as eleições diretas, que ocorreram no ano seguinte.  Nos últimos anos vinha sendo julgado pelas mortes em seu governo, mas morreu como cidadão livre.

Os dois parágrafos em lide e pirâmide invertida se encaixam muito bem em um minuto de telejornal ou em algumas linhas de uma revista. Entretanto, é necessário mais para entendermos o que foram os “anos Pinochet” no Chile.

I

A ditadura militar no Chile não foi um caso isolado no continente americano. Ocorreu o mesmo no Brasil, na Argentina, na Nicarágua, no Paraguai, só pra citar alguns países. Insere-se no contexto da Guerra Fria (1945-1991), quando Estados Unidos e União Soviética, as duas maiores potências da época, travaram uma guerra político-ideológica para impor ao resto do mundo seu modelo: para os norte-americanos, o capitalismo; para os soviéticos, o socialismo. As duas nações, por pouco, não chegaram a travar uma guerra bélica.

Os estadunidenses temiam que os ideais comunistas ganhassem forças no continente. Já havia o exemplo de Cuba, onde Che Guevara, Fidel e Raúl Castro derrubaram Fulgêncio Batista e implantaram o socialismo – até hoje a ilha sofre com o boicote econômico liderado pelos ianques. Para evitar que o mesmo ocorresse em outros países das américas, a CIA colocou em prática a Operação Condor, que consistia em patrocinar e treinar os exércitos  dos países “em risco” para que estes pudessem tomar o poder, ganho com o apoio do povo, com o pretexto de protegê-lo do “perigo vermelho”, a saber, o comunismo. Assim, tinham cara branca para tratar como bem entedessem os militantes de esquerda. Deu certo. O Chile que o diga.

Para os chilenos, o 11 de setembro trágico foi aquele de 1973. O coronel Augusto Pinochet liderou seu exército a caminho do Palacio De La Moneda, e com armas e tanques bombardeou e invadiu o prédio presidencial, onde estava Allende, o primeiro marxista eleito democraticamente da história mundial. O presidente, vendo-se sem saída, discursou no rádio, dizendo que seriam seus últimos momentos. Suicidava-se minutos depois. Morriam com ele a democracia e a liberdade.

Foram 17 anos no poder. Os contestadores eram perseguidos, torturados, e se não se exilassem, fatalmente eram assassinados. Betinho - ”irmão do Henfil” – na época do golpe vivia no Chile, pois corria riscos no Brasil. Era assessor de Allende. Veio Pinochet, e foi necessário exilar-se na embaixada panamenha, com outros que poderiam ser capturados. Passou dias naquele prédio superlotado - 300 pessoas -, dormindo no chão, alimentando-se mal, sem poder tomar banho, com pouca água, e sem ver a luz do sol, pois do lado de fora armas apontavam para as janelas. Betinho conseguiu viajar para o Panamá, e de lá para o Canadá. Henfil conta essa história no seu livro Diário de um Cucaracha.

Plínio de Arruda Sampaio Júnior também vivia no Chile naquela época. Conta que estudava com o filho de Pinochet quando o coronel ocupou o posto de Chefe do Exército Chileno, indicado por Allende. Plínio Jr., lembrando o Golpe de 64, brincou com o amigo: “Cuidado, seu pai vai virar presidente”. O garoto não entendeu. Semanas depois, Plínio, o pai, ex-militante do PT e hoje no PSOL, acordava aos berros o filho, dando a notícia do golpe de Pinochet. Claro, também tiveram que sair do país.

II

A herança que Pinochet deixou para o Chile é assombrosa: três mil militantes de esquerda mortos, fora os 30 mil torturados e os 130 mil presos, que carregam consigo seqüelas físicas e psicológicas. O ex-ditador também é lembrado pelo crescimento econômico que reduziu a inflação no país, o que não justifica o sofrimento das famílias das vítimas, muitas até hoje sem o paradeiro dos corpos dos filhos.

Ainda assim, há divergências no próprio país. No domingo houve tumultos entre manifestantes opositores de Pinochet e seus simpatizantes, os “pinochetistas”. No Jornal Nacional da segunda-feira, uma chilena, aos prantos, dizia aos repórter: “Pinochet es mi padre”; Outra falava que o coronel salvou o país porque acabou com os comunistas. Logicamente estes pertenciam à minoria, em contraste com os muitos que saíram às ruas para festejar. A palavra mais suave que usavam era “asesino”.

No mundo todo, as notas das autoridades eram uníssonas. Não lamentava-se a morte, haja vista os anos de autoritarismo e terror. Exceção foi Margaret Tatcher, ex-primeira-ministra britânica, que recebeu com pesar a notícia. Faz sentido: recebeu apoio do Chile na Guerra das Malvinas. Michelle Bachelet, presidente do Chile, pediu que o julgamento do ditador nao cesse, por haver outros envolvidos a serem sentenciados. Acrescentou que foi uma pena ele ter morrido livre: estava solto até mesmo da prisão domiciliar, e ainda tinha direito aos milhões de dólares de enriquecimento ilícito.

Apesar de tudo, as ditaduras militares na América do Sul fizeram surgir um fenômeno que é mais forte aqui do que em todo o resto do mundo: a ascensão à presidência dos líderes de origem esquerdista. Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Equador e o próprio Chile começam a eleger, pelo voto do povo, pessoas de DNA socialista, muitas que sofreram na carne os anos de repressão. Às vezes, esses governos de esquerda se confundem com o populismo, mas mesmo assim são preferíveis às velhas oligarquias elitistas que sempre mandaram nesse hemisfério.

III

O corpo de Pinochet foi velado com todas as honras militares de um general de sua patente. Cerca de 70 mil pessoas viram pela última vez o eterno ditador na sala central da Escola Militar de Santiago, agora indefeso, imóvel naquele caixão. O governo da ex-militante Michelle Bachelet, de esquerda, recusou-se a prestar homenagens fúnebres de Chefe de Estado, pois o general não chegou ao poder pelo voto.

IV

Terça-feira, 12 de dezembro, no cemitério Parque Del Mar, na cidade de Concón, era cremado o corpo de Augusto Pinochet. Um homem que se achava onipotente está agora reduzido a pó. O Chile não está de luto. Somente as instâncias militares puderam baixar as bandeiras a meio-pau. No coração dos oprimidos pelo ditador, sentimentos de alegria e injustiça. Morreu impune. Se bem que nenhuma pena a que fosse condenado iria se equiparar aos 17 anos de repressão. Qualquer sentença seria insuficiente.

Coincidentemente, o úlito dia 10 de dezembro foi o dia do aniversário de Lucía Hiriart, viúva de Pinochet. Também é o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Tristeza para alguns, felicidade para muitos

*****

Nessa semana tivemos uma perda realmente significativa. Morreu Severino Dias de Oliveira, o Sivuca, aos 76 anos, notável compositor e sanfoneiro. Sua última obra foi o DVD “Sivuca – O Poeta do Som”, lançado em 20 de novembro, na Paraíba, onde faleceu de um câncer que o acometia há dois anos.

Reverência ao destino.

(Carlos Drummond de Andrade)

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus próprios erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem para fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”. Difícil é dizer “adeus”. Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas.

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E aprender a dar valor a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando tiver vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te farão feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho.

Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se eterniza, e nenhuma força jamais o resgata.

*** Não, não…. Não há engano. Eu doei meu dia para o Drummond, meu amigo íntimo. rs.
Não só pela falta de texto, mas por ser meu escritor favorito. Sabe quando as idéias se batem, se unem. Pois é, essa é a minha relação com Carlinhos… rs. Minha inspiração. Foi difícil escolher um SÓ texto dele pra colocar nestamerda, mas ai está.

Até a próxima, meus caros!

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