Tarcisio Oliveira
Eu estava lendo Sanduíches de Realidade (Arnaldo Jabor), quando deparei-me com este texto, lembrei que no ano passado a Professora Edna Alessio pediu para que fizéssemos um texto comparando São Paulo e Rio de Janeiro, acho que ela vai gostar desse.
Vários chatos na ponte aérea já me disseram: “Por que você não escreve sobre Rio e São Paulo?” Nunca escrevi, porque este tema é a pior forma de fim de noite, quando todas as piadas já acabaram. Pior que “homem e mulher”, pior que “Picasso ou Bracque”, pior que “Beatles ou Rolling Stones”. Mas, atendendo a pedidos (já que é fim de ano), resolvi aceitar o tema. Vamos a isto.
“ A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.” (Nélson Rodrigues)
“A pior forma de ilusão é a simpatia de um carioca.” (eu)
Em São Paulo, se você bobear, vira escravo. No Rio, se bobear, vira vagabundo.
O carioca está deprimido e não sabe. O paulistano e maníaco e não sabe.
Em São Paulo, os milionários trabalham. No Rio, moram em Paris.
Em São Paulo, o contrário do burguês é o proletário. No Rio, o contrário do burguês é o boêmio.
Carioca acredita no espírito carioca. Paulista acredita na matéria.
São Paulo é Carandiru. Rio é Vigário Geral.
No Rio, só os criminosos são práticos e organizados, como os paulistas.
Em São Paulo, o crime ainda esta fora do processo produtivo.
Em São Paulo, o crime é free lance. No Rio, o crime é empresa. Ou seja, no Rio, o crime é paulista.
Em São Paulo, o crime é carioca.
São Paulo é um filme americano. O Rio é um filme brasileiro.
O Rio é ficção. São Paulo é documentário.
A miséria no Rio é dentro.
Em São Paulo, é fora.
No Rio, a miséria e no alto.
Em São Paulo, é embaixo.
Em São Paulo, há menos miséria; mas a miséria é mais miserável. No Rio, a miséria já deu samba.
Em São Paulo, a miséria não dança.
O “cash flow” dos mendigos é melhorem São Paulo. Mas no rio ele se sente em casa.
Se eu fosse miserável, preferiria morar no Rio.
O Rio é matisse e Munch (no mesmo quadro). São Paulo é Marcel Duchamp.
No Rio, os motéis estão por toda a parte.
Em São Paulo, os motéis são na Via Dutra.
No Rio, sexo é prazer.
Em São Paulo, é pecado.
Todo paulista tem amante. Todo carioca come alguém.
No Rio, as putinhas têm prazer.
Em São Paulo, são frias.
No Rio, há café society.
Em São Paulo, Café Photo.
Na Ipiranga com a São João, São Paulo foi redescoberta por um baiano.
Antes de Caetano, São Paulo não sabia que existia. São Paulo tinha complexo. Agora, o rio tem inveja.
No Rio, as mulheres são mais sensuais.
Em São Paulo, são mais sacanas.
No Rio, há nudez, com menos desejo.
Em São Paulo, muita roupa, com mais tesão.
No Rio, as mulheres são cínicas.
Em São Paulo, são românticas.
O Rio é histérico. São Paulo é obsessiva.
Paulista é mais serio que carioca. Por isso, pode até acabar com você.
Em São Paulo, filho da puta é filho da puta. No Rio, como saber?
Paulista odeia críticas. Carioca odeia auto críticas.
O Rio é a “dialética da malandragem”. São Paulo é Antonio Candido.
O Rio é vagabundo, São Paulo é lúmpen.
O Rio é Oswald de Andrade. São Paulo é Mario de Andrade.
São Paulo é PT. O Rio é PMDB. Mas o Rio é socialista. São Paulo neoliberal.
O Rio é associativo. São Paulo, seqüencial.
O Rio é eu. São Paulo, “os outros”.
O Rio é católico, São Paulo, protestante.
O Rio é esquizofrênico. São Paulo, paranóico.
O Rio se acha superior ao resto do Brasil. São Paulo é superior.
No Rio, há contos do vigário.
Em São Paulo, bons negócios.
No Rio, são todos amigos.
Em São Paulo, todos são puxa-sacos.
O carioca se ilude com a paisagem. Paulista se ilude com a avenida Paulista.
Paulista gosta de carioca. Carioca não gosta de paulista.
Carioca não te convida para jantar. Paulista convida, para te jantar.
Carioca pensa que ainda é criativo, mas está apenas mal-informado.
Todo o poder estáem São Paulo. No Rio, todo o poder está na Globo.
No Rio, estamos diante de uma saudade.
Em São Paulo, tudo é fato consumado.
Carioca pensa que sabe gozar a vida. Paulista aumenta a produtividade.
O Rio é um feriado, São Paulo é uma segunda-feira.
No Rio, todos são funcionários públicos, aposentados ou psicólogos.
Em São Paulo, todos são publicitários, gerentes de marketing ou psiquiatras.
O Rio é insolúvel.
Em São Paulo, o insolúvel é mais organizado.
SP é prozac. Rio é maconha.
O Rio é viado. São Paulo drag queen.
No Rio, só tem otário.
Em São Paulo, só tem malandro.