Márcio Garoni – mesmo texto do meu blogue
Não sei se é daquelas sensações comuns a todas as crianças (afinal, nunca fui outra criança), mas às vezes eu achava que o mundo girava ao meu redor. Muito antes de Biguebróder, EdTV ou O Show de Truman.

Silenciosamente, desconfiava de tudo o que o mundo teimava em me fazer aprender. Não era possível haver tanta gente na Terra, muito menos ela ser tão grande como diziam. Nas viagens mais longas, para mim, aqueles eram sempre os mesmos lugares. O motorista, para enganar, andava em círculos, para eu não descobrir a beirada. Rússia, desertos, geleiras, Amazônia, todos esses lugares, se é que existissem, estavam por ali, a alguns quilômetros de distância.
E quando eu fazia algo errado? Poderia muito bem haver uma câmera por perto, talvez uma bem pequena, minúscula, escondida dentro da lâmpada, ligada 24 horas por dia – muito antes de Jack Bauer. E todos ‘poder-me-iam’ ver quando quisessem na tevê, reunindo-se na minha ausência para planejar meus próximos passos, os capítulos seguintes.
Com o tempo, é claro, essa neura foi diminuindo. Talvez acelerada pela experiência da morte de pessoas próximas, ou da minha quase-morte. A verdade implacável tem esse poder de desfazer castelos de areia, principalmente quando se trata desta minha cabeça de camarão, cheia de bosque por dentro. Mas é difícil se livrar por completo de uma idéia tão paranóica como essa, de vida à 1984. Ainda mais quando essa vida poderia render um filme, uma trilogia, um seriado – nos três casos, seria um besteirol.
Só digo que não vou ficar surpreso quando, qualquer dia desses, ao trocar a lâmpada do quarto, ver nela um pontinho piscante, vermelho. Aí, todos vocês estarão no paredão.

