Márcio Ribeiro Garoni - um dos dois que sobreviveram no blogue
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Arnaldo, como alguns brasileiros, acordava cedo para trabalhar. Era casado com Rosana, com quem tomava o café da manhã todos os dias. Ela, como uma boa dona de casa, ficava em casa. Não tinham filhos.
Numa dessas manhãs de terça ou quinta-feira, Arnaldo saiu para trabalhar. Pegou seu carro-último-ano na garagem e seguiu a caminho do escritório, no outro lado da cidade. No meio do percurso, percebeu que tinha esquecido a documentação do carro. Deu meia-volta, voltando pra casa.
Subia para o quarto quando encontrou Rosana nua. Nada anormal, se também não tivesse visto nu aquele loiro alto, de olhos azuis e cabelos encaracolados, que aparentava ter o dobro do tamanho de Arnaldo e metade de sua idade.
- Quem é esse homem, Rosana?! – perguntou a voz desafinada de Arnaldo.
- Que homem, respondeu Rosana com outra pergunta.
- Como assim, que homem? Esse cara que está aí, com a, o… a…, esse cara aí!
- Ah, ele…. Ele não é um homem.
- Rosana, presta atenção no que você está me dizendo. Quer dizer que este cara, nu em MEU quarto, não é um homem?
- Isso mesmo, amor. Ele não é um homem. É um anjo. Veio do Céu e vai viver aqui em casa.
- Um anjo? Deste tamanho? E pelado?
- É um anjo especial, né, Arnaldo! Agora pode ir trabalhar tranqüilo que o Anjo vai me deixar mais segura.
Arnaldo foi, meio contrariado, claro, mas com o tempo esfriou a cabeça e percebeu que tinha sido abençoado. “Nossa, um anjo em minha casa!” – pensava ele – “Todos aqueles anos me confessando, finalmente sou um abençoado”.
O Anjo foi ficando íntimo do casal. Deitava no sofá, com o controle da tevê na mão, saía de manhã e voltava de madrugada, bêbado, mijava com a porta do banheiro aberta (quando bêbado, com a tampa da privada fechada)… Já fazia parte da família.
O mais curioso foi o que aconteceu na semana passada. Arnaldo se despedia de Rosana para ir ao trabalho, quando viu o Anjo correndo, nu, no quintal do vizinho, que corria atrás dele, dizendo: “Eu vou te matar!”. Arnaldo, vendo esta cena, riu e disse à mulher:
- Coitado do Anjo, não sabia que o vizinho é ateu…
Essa foi tirada do livro O Pasquim – Antologia (1968-1970). É do Chico Anysio, mas contei do meu jeito, porque não tenho a bíblia em mãos.


Meu muito bom, sem cometários, afinal quantos Arnaldos devem existir? Espero que eles leiam
Querido!!!
muito boa essa crônica!!!
hahahaha!
existem milhares de “anjinhos” por ai…
É…vou aguentando por aqui…vamosver no que vai dar…provavelmente em mais uma greve…=/
bjoOOOo
e boa sorte com a leitura por ai!
Também estou a correr atrás da bíblia.
Mais uma vez, o grande Márcio – vulgo Magrão -, mandou bem.
Bela forma de recontar o conto.
Genial, Chico, genial. Se fossemos uma pátria a cultuar seus mestres, o Anísio, seria uma das pilatras do humor mundial. Assim como Oscarito, Grande Otelo…
Aaah.
Muitoo bom..
Um dia eu chego lá! rs.
=)