Márcio - lembram daquela festa que começou no dia 31 de dezembro? Pois é. Terminou. Acabou o Carnaval. Feliz Ano Novo! Agora não tem desculpa.
(Tenho procrastinado o texto sobre o filme “Farto de Solidão”. Tava enorme mesmo, reduzi o máximo que pude. Agora que já faz mais de um mês, publicá-lo-ei. Ex Eis:)
19 DE JANEIRO DE 2007
A noite de 19 de janeiro foi inesquecível para todos aqueles senhores e senhoras no Teatro Municipal de Santos. Noite para lembrar uma época de alegrias e dramas. Noite para reencontrar amigos de 30,40 anos atrás, camaradas que tiveram suas histórias atravessadas pela História, nos anos que se seguiram ao Golpe Militar de 1964.
O homenageado da noite era Luiz Rodrigues Corvo, retratado no documentário Farto de Solidão, que narra sua trajetória política como vereador de Santos, abreviada pela revolução que se revelaria ditadura. Mas já conto como foi o filme.
ANTES DO FILME
Meu celular marcava 20h15 quando subia os degraus da entrada do Teatro Municipal (mostrar as horas é a principal função do meu despert celular). A entrada para o filme seria aberta em quinze minutos. Em volta, observava, predominavam os mais velhos, com seus sessenta, setenta e poucos anos nas costas curvadas. Parou na minha frente um senhor, perguntando se era um filme que iria passar ali. Confirmei, falei que era sobre um vereador que fora cassado na ditadura. Nessa ele perguntou: “E ele está vivo?” Disse que não sabia, ao mesmo tempo em que pensava: Deve ter morrido.
Todos começamos a entrar, alertados pelas monitoras que os lugares do centro para trás eram melhores para assistir ao filme. Sentei ao centro, na primeira fila depois do corredor, para poder esticar as pernas. Casualmente, um homem sentou-se ao meu lado. Alto, sobrancelhas espessas, cabelos grisalhos, falou:
- Engraçado, veio pouca gente, pensei que teria mais.
- É verdade – concordei.
- Você é quem? – perguntou como se eu fosse famoso, não um reles blogueiro.
- Márcio – o que eu podia responder, “marciogaroni.wordpress.com“?
- Ah, você não é parente de ninguém aqui?
- Não, fiquei sabendo do documentário e me interessei.
Ele se surpreendeu por causa disso, ainda mais pela minha idade. Chegava mais gente, inclusive amigos do homem ao meu lado, que me apresentou a eles, etecétaras e tals. Também perto de onde eu me sentava chegou a irmã de Luiz Corvo, Dilma Corvo, a “estrela do filme”, como bem disse uma das senhoras em volta.
- Você conhece essa história? – perguntei ao homem.
- Pô, eu vivi essa história – riu, satisfeito.
As luzes se apagaram, o local bem mais cheio do que vinte minutos antes. Apresentava-se no palco Roberta Corvo, filha de Luiz Rodrigues, a principal responsável pela realização do documentário, que contou como surgiu a idéia do filme. Chamou para o microfone Mariana Reade, que dirigiu o filme junto com Luiz Carlos Prestes Filho. Reade agradeceu aos colaboradores que prestaram depoimento no documentário – muitos deles presentes – e finalizou o doscurso assim: “Agora, ninguém melhor para contar essa história do que o próprio Luiz Rodrigues Corvo.
Me surpreendi. Luiz Corvo saía de trás das cortinas que guardavam o telão. Palmas. Corvo falou da surpresa preparada pela filha: ele pensava que estava gravando um documentário sobre o período; não imaginava que era ele o personagem principal. Só foi descobrir quando recebeu o filme pronto, ano passado, no aniversário de 65 anos.
COM VOCÊS, FARTO DE SOLIDÃO
O documentário é filmado todo em Santos, exceto no início, gravado em São Paulo, no Palácio Positivista do Brasil. Ali se exalta o ideal positivista no Brasil, que originou nossa independência sem armas, personificada em José Bonifácio. Esses ideais do francês Augusto Comte inspiraram o Hino Nacional e a frase de nossa bandeira. A analogia criada pela dupla de diretores é perfeita, pois a “ordem” e o “progresso” foi o que menos se viu nos anos da ditadura no país, onde muitos tiveram que lutar contra um inimigo interno – o próprio governo.
Na década de 60, Santos era a Moscou Brasileira. Assim como no início do século XX o anarquismo tornou a cidade a Barcelona Brasileira, nos anos 60 o comunismo tinha em Santos seu coração vermelho. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), muito forte aqui, era clandestino antes mesmo do golpe.
Em 1963, eleito vereador aos 22 anos pelo Partido Republicano, Luiz Corvo era o segundo mais votado do pleito. Em 1° de janeiro do ano seguinte tomou posse e em 27 de março iniciou o exercício parlamentar. Porém, a “revolução” de 1964 esgotou as esperanças de legitimação do PCB, partido ao qual Corvo realmente pertencia. Ele precisaria fugir. Só neste momento a família ficou sabendo que Corvo era membro do Partidão. A irmã, Dilma, não entendia a filiação de Luiz ao PCB: “Ele não tinha necessidade de ser comunista”.
Fugiu para São Paulo. O coronel Erasmo Dias foi à casa da mãe de Corvo e disse que tinha ordens para matá-lo. O vereador, ligava diariamente para casa para dizer que estava bem, pois volta e meia noticiava-se sua morte. No dia 6 de abril, seu mandato foi cassado, sob alegação de ”medida de salvação nacional pela sua integração nas forças que ameaçaram a segurança e a soberania nacional”.
Erasmo Dias, comandante da Fortaleza de Itaipu, onde Corvo ficou preso por 4 meses em 1965, também depõe no filme. Os velhinhos da platéia esqueceram os próprios cabelos brancos e xingaram a imagem projetada na tela. A mãe de Erasmo Dias foi lembrada várias vezes.
Luiz Rodrigues Corvo nunca mais voltaria à carreira política. Promessa que precisou fazer à mãe, angustiada com o risco que o filho correu naquele período. Dedicou-se à advocacia e, principalmente, à família. A mãe está viva até hoje.
O início do filme exibe um vídeo de Luiz Corvo na praia da Santos, com a mulher e os filhos. Já é a Santos do final dos anos 70, um pouco mais calma com o abrandamento do regime. O documentário termina com as mesmas imagens do ex-vereador com a família na areia. Talvez sua vida seja como o mar à beira da praia. Cheia de altos e baixos, a maré sobe um pouco, logo retorna para trás. Fica na areia a marca da água.
CUMPRIMENTOS, DESPEDIDAS
Terminado o filme, mais palmas, todos de pé, e formou-se uma pequena multidão ao redor do homenageado. Ia me despedir do homem que se sentara ao meu lado, mas este já conversava com Corvo. Fui abraçar a irmã, Dilma Corvo, e dei parabéns a ela. “Todos precisam conhecer essa história”, disse, percebendo minha idade.
Desci pela escadaria à esquerda, cruzei o concreto da entrada do teatro e desci o lance de escadas da saída. A noite daquela sexta-feira foi inesquecível. Principalmente para um jovem de 18 anos que por duas horas viveu intensamente outra época.
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SAITES DE APOIO:
http://www.camarasantos.sp.gov.br/noticia.asp?codigo=1163&COD_MENU=102 - história de Luiz Corvo;
http://blog.comunidades.net/adelto/index.php?op=arquivo&pagina=12&mmes=01&anon=2006 - história dos apelidos de Santos, como Cidade Vermelha, Barcelona Brasileira, relação com a literatura;
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0285z3.htm - homenagen da Câmara a Corvo em 2004.
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OUTRA COISA
Quem tiver um tempinho de sobra e gosta de um bom jornalismo, leia este texto, de uma estudante de jornalismo da Bahia. Isso que é reportagem. Leia o texto intitulado As faces da loucura, o segundo da página. Lízia Sena o nome dela.
Aproveitando q já comentei no teu blog, já comento aqui tb…
Finalmente o tão esperado texto!!
Espero poder ver esse documentário, mas com a sua reportagem especial já dá pra ter uma idéia hauhauhau
tá ótimo!
bjo