Márcio Ribeiro Garoni – como prometido, alguma coisa parecida com jornalismo

Morreu de infarto Augusto Pinochet, no Hospital Militar de Santiago do Chile. O ex-ditador chileno, que tinha 91 anos, faleceu no último domingo, 10 de dezembro, e estava internado desde o dia três, em razão de um ataque cardíaco.
Pinochet foi presidente do Chile de 1973 a 1990. Tomou posse por meio de um golpe de Estado, que culminou com a morte do presidente em exercício Salvador Allende. O período foi caracterizado pelo crescimento de economia chilena e por uma grande repressão, com três mil mortos. Em 1988, um plebiscito restabelecia as eleições diretas, que ocorreram no ano seguinte. Nos últimos anos vinha sendo julgado pelas mortes em seu governo, mas morreu como cidadão livre.
Os dois parágrafos em lide e pirâmide invertida se encaixam muito bem em um minuto de telejornal ou em algumas linhas de uma revista. Entretanto, é necessário mais para entendermos o que foram os “anos Pinochet” no Chile.
I
A ditadura militar no Chile não foi um caso isolado no continente americano. Ocorreu o mesmo no Brasil, na Argentina, na Nicarágua, no Paraguai, só pra citar alguns países. Insere-se no contexto da Guerra Fria (1945-1991), quando Estados Unidos e União Soviética, as duas maiores potências da época, travaram uma guerra político-ideológica para impor ao resto do mundo seu modelo: para os norte-americanos, o capitalismo; para os soviéticos, o socialismo. As duas nações, por pouco, não chegaram a travar uma guerra bélica.
Os estadunidenses temiam que os ideais comunistas ganhassem forças no continente. Já havia o exemplo de Cuba, onde Che Guevara, Fidel e Raúl Castro derrubaram Fulgêncio Batista e implantaram o socialismo – até hoje a ilha sofre com o boicote econômico liderado pelos ianques. Para evitar que o mesmo ocorresse em outros países das américas, a CIA colocou em prática a Operação Condor, que consistia em patrocinar e treinar os exércitos dos países “em risco” para que estes pudessem tomar o poder, ganho com o apoio do povo, com o pretexto de protegê-lo do “perigo vermelho”, a saber, o comunismo. Assim, tinham cara branca para tratar como bem entedessem os militantes de esquerda. Deu certo. O Chile que o diga.
Para os chilenos, o 11 de setembro trágico foi aquele de 1973. O coronel Augusto Pinochet liderou seu exército a caminho do Palacio De La Moneda, e com armas e tanques bombardeou e invadiu o prédio presidencial, onde estava Allende, o primeiro marxista eleito democraticamente da história mundial. O presidente, vendo-se sem saída, discursou no rádio, dizendo que seriam seus últimos momentos. Suicidava-se minutos depois. Morriam com ele a democracia e a liberdade.
Foram 17 anos no poder. Os contestadores eram perseguidos, torturados, e se não se exilassem, fatalmente eram assassinados. Betinho - ”irmão do Henfil” – na época do golpe vivia no Chile, pois corria riscos no Brasil. Era assessor de Allende. Veio Pinochet, e foi necessário exilar-se na embaixada panamenha, com outros que poderiam ser capturados. Passou dias naquele prédio superlotado - 300 pessoas -, dormindo no chão, alimentando-se mal, sem poder tomar banho, com pouca água, e sem ver a luz do sol, pois do lado de fora armas apontavam para as janelas. Betinho conseguiu viajar para o Panamá, e de lá para o Canadá. Henfil conta essa história no seu livro Diário de um Cucaracha.
Plínio de Arruda Sampaio Júnior também vivia no Chile naquela época. Conta que estudava com o filho de Pinochet quando o coronel ocupou o posto de Chefe do Exército Chileno, indicado por Allende. Plínio Jr., lembrando o Golpe de 64, brincou com o amigo: “Cuidado, seu pai vai virar presidente”. O garoto não entendeu. Semanas depois, Plínio, o pai, ex-militante do PT e hoje no PSOL, acordava aos berros o filho, dando a notícia do golpe de Pinochet. Claro, também tiveram que sair do país.
II
A herança que Pinochet deixou para o Chile é assombrosa: três mil militantes de esquerda mortos, fora os 30 mil torturados e os 130 mil presos, que carregam consigo seqüelas físicas e psicológicas. O ex-ditador também é lembrado pelo crescimento econômico que reduziu a inflação no país, o que não justifica o sofrimento das famílias das vítimas, muitas até hoje sem o paradeiro dos corpos dos filhos.
Ainda assim, há divergências no próprio país. No domingo houve tumultos entre manifestantes opositores de Pinochet e seus simpatizantes, os “pinochetistas”. No Jornal Nacional da segunda-feira, uma chilena, aos prantos, dizia aos repórter: “Pinochet es mi padre”; Outra falava que o coronel salvou o país porque acabou com os comunistas. Logicamente estes pertenciam à minoria, em contraste com os muitos que saíram às ruas para festejar. A palavra mais suave que usavam era “asesino”.
No mundo todo, as notas das autoridades eram uníssonas. Não lamentava-se a morte, haja vista os anos de autoritarismo e terror. Exceção foi Margaret Tatcher, ex-primeira-ministra britânica, que recebeu com pesar a notícia. Faz sentido: recebeu apoio do Chile na Guerra das Malvinas. Michelle Bachelet, presidente do Chile, pediu que o julgamento do ditador nao cesse, por haver outros envolvidos a serem sentenciados. Acrescentou que foi uma pena ele ter morrido livre: estava solto até mesmo da prisão domiciliar, e ainda tinha direito aos milhões de dólares de enriquecimento ilícito.
Apesar de tudo, as ditaduras militares na América do Sul fizeram surgir um fenômeno que é mais forte aqui do que em todo o resto do mundo: a ascensão à presidência dos líderes de origem esquerdista. Brasil, Argentina, Bolívia, Venezuela, Equador e o próprio Chile começam a eleger, pelo voto do povo, pessoas de DNA socialista, muitas que sofreram na carne os anos de repressão. Às vezes, esses governos de esquerda se confundem com o populismo, mas mesmo assim são preferíveis às velhas oligarquias elitistas que sempre mandaram nesse hemisfério.
III
O corpo de Pinochet foi velado com todas as honras militares de um general de sua patente. Cerca de 70 mil pessoas viram pela última vez o eterno ditador na sala central da Escola Militar de Santiago, agora indefeso, imóvel naquele caixão. O governo da ex-militante Michelle Bachelet, de esquerda, recusou-se a prestar homenagens fúnebres de Chefe de Estado, pois o general não chegou ao poder pelo voto.
IV
Terça-feira, 12 de dezembro, no cemitério Parque Del Mar, na cidade de Concón, era cremado o corpo de Augusto Pinochet. Um homem que se achava onipotente está agora reduzido a pó. O Chile não está de luto. Somente as instâncias militares puderam baixar as bandeiras a meio-pau. No coração dos oprimidos pelo ditador, sentimentos de alegria e injustiça. Morreu impune. Se bem que nenhuma pena a que fosse condenado iria se equiparar aos 17 anos de repressão. Qualquer sentença seria insuficiente.
Coincidentemente, o úlito dia 10 de dezembro foi o dia do aniversário de Lucía Hiriart, viúva de Pinochet. Também é o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Tristeza para alguns, felicidade para muitos
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Nessa semana tivemos uma perda realmente significativa. Morreu Severino Dias de Oliveira, o Sivuca, aos 76 anos, notável compositor e sanfoneiro. Sua última obra foi o DVD “Sivuca – O Poeta do Som”, lançado em 20 de novembro, na Paraíba, onde faleceu de um câncer que o acometia há dois anos.
Grande Márcio.
Belo texto, excelente reflexão
O Sivuca não morreu. Está em outra moradia.
Grande abraço
AHIUAHioUAHoIAH!
Ai aiii…
Belo texto Marciooo!
Quem sabe agora Sivuca será lembrado… quanto ao Pinochet, que ele agora possa aprender um pouco mais sobre a sua prórpia vida.
Eu não sumi, apenas estou sem monitor, assim que consertar volto a postar nesta merda. Quanto ao texto muito bom Garoni, graças a Deus menos um para colocar pânico nos pobres terrestres. Hauuuuuuuuuuu
Tarcisio